Por Silas Brasileiro
Presidente do Conselho Nacional do Café — CNC
Os debates realizados recentemente em Santos, durante o Seminário Internacional do Café, trouxeram reflexões importantes para toda a cadeia produtiva. O Conselho Nacional do Café (CNC) acompanha com atenção esses movimentos, reconhece a relevância de muitos pontos apresentados e entende que o diálogo entre produção, indústria, exportação, pesquisa e mercado internacional é indispensável para o futuro da cafeicultura brasileira.
Concordamos que o Brasil tem diante de si uma grande oportunidade de reposicionamento global. Temos uma matriz energética limpa, uma produção agropecuária competitiva, capacidade tecnológica, sustentabilidade reconhecida e condições de ampliar sua presença internacional com produtos de maior valor agregado. No café, isso significa fortalecer não apenas a venda do grão, mas também avançar em cafés processados, industrializados, diferenciados e reconhecidos pela qualidade, origem e responsabilidade socioambiental.
Também concordamos que o setor precisa investir, de forma permanente, em educação do consumidor, promoção dos cafés do Brasil e ampliação do consumo mundial. Não basta produzir mais. É preciso criar mercado, valorizar atributos, comunicar melhor a sustentabilidade da nossa produção e fortalecer a percepção internacional sobre o café brasileiro.
No entanto, há pontos que exigem cautela e firme posicionamento da representação dos produtores.
Estimativas apresentadas por consultorias durante o evento apontam para uma safra brasileira acima de 70 milhões de sacas. O Rabobank projeta 73,2 milhões de sacas, sendo 48,7 milhões de arábica e 24,6 milhões de canéfora. A StoneX estima 75,3 milhões de sacas, com 50,2 milhões de arábica e 25,1 milhões de canéfora. No cenário mundial, os dados indicam produção de aproximadamente 178 milhões de sacas, frente a um consumo estimado em 169 milhões, o que representaria um superávit entre 8 e 10 milhões de sacas.
Esses números precisam ser analisados com responsabilidade. O excesso de oferta, quando não acompanhado de crescimento consistente do consumo, pode provocar aviltamento de preços. E a queda de preços atinge diretamente o bolso do produtor, especialmente aquele que depende da renda da safra para manter sua família, honrar compromissos, investir na propriedade e garantir a permanência das novas gerações no campo.
Sem renda, não há sucessão familiar. Sem renda, os filhos dos produtores têm dificuldade de estudar, se qualificar, cursar uma faculdade e retornar para administrar as propriedades dos pais e avós. Sem renda, aumenta o risco de êxodo rural, de abandono da atividade e de fragilização da base produtiva que sustenta a liderança do Brasil no café mundial.
O CNC sempre afirmou que não faltaria café para abastecer a indústria e os mercados consumidores. Mesmo diante de anos difíceis, com safras menores, adversidades climáticas, altas temperaturas, geadas, granizo e instabilidades internacionais, o Brasil e os demais países produtores foram capazes de garantir o abastecimento. Um menor estoque de passagem foi registrado em 31 de março de 2026 e comprovou a pressão sobre o mercado, mas também mostrou que não houve desabastecimento.
Portanto, o debate central não deve ser conduzido pelo receio da falta de café, mas pela responsabilidade de evitar desequilíbrios entre oferta e demanda. Se as estimativas de safra se confirmarem em patamares próximos ou superiores a 70 milhões de sacas no Brasil, o risco de queda de preços poderá se tornar real e precisa ser tratado com seriedade.
Nesse contexto, o CNC reafirma sua preocupação com propostas de abertura de mercado para importação de café. Importar café não é uma solução simples nem neutra. Ao contrário, pode trazer riscos fitossanitários, mercadológicos e estratégicos ao Brasil. O ingresso de cafés de outras origens pode expor o país a pragas e doenças, pressionar artificialmente os preços internos e fragilizar justamente o elo mais sensível da cadeia: o produtor.
O Brasil construiu sua liderança global com trabalho, tecnologia, organização cooperativista, pesquisa, sustentabilidade e esforço de milhares de famílias produtoras. Não podemos permitir que decisões apressadas comprometam esse patrimônio. Defender o produtor não é defender um interesse isolado; é defender a base econômica, social e ambiental da cafeicultura brasileira.
É natural que existam visões diferentes dentro da cadeia. A representação da produção tem uma missão. A indústria e a exportação possuem outras preocupações e dinâmicas de mercado. O diálogo é necessário, mas não podemos ignorar que nem sempre todos os segmentos demonstram a mesma preocupação com a renda do produtor. Para o CNC, esse ponto é inegociável.
Também preocupa a utilização de recursos do Fundo de Defesa da Economia Cafeeira — Funcafé — para subsidiar ou compor outros fundos. O Funcafé nasceu da própria produção, a partir do histórico confisco sobre o café, e deve manter sua finalidade essencial: apoiar a cafeicultura brasileira.
O momento exige equilíbrio, visão estratégica e responsabilidade. O Brasil pode e deve ampliar sua presença no mercado global, agregar valor, industrializar mais, promover seus cafés e crescer de forma sustentável. Mas esse crescimento precisa preservar renda, dignidade e futuro para quem produz.
O CNC seguirá defendendo uma cafeicultura forte, competitiva e equilibrada, com abastecimento garantido, consumo mundial ampliado, valorização dos cafés do Brasil e, acima de tudo, respeito ao cafeicultor.
Porque sem produtor não há café. E sem renda no campo não há futuro para a cafeicultura brasileira.
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